O retrato global de tech, Parte III - China: O Gigante Irrefreável e o Capitalismo de Estado
Minha terceira parada nesta jornada pelo ecossistema tech asiático junto à Amazon AWS mentorando start-ups foi a China. Se Japão e Coreia do Sul já me proporcionaram diversas reflexões, a experiência em Shanghai foi um choque de realidade. Passei 10 dias na cidade conversando com founders, executivos e investidores, e a primeira coisa que ficou evidente foi que a China está muito à frente dos outros mercados asiáticos. Enquanto Japão e Coreia ainda enfrentam barreiras para expandir internacionalmente, a China já domina o jogo e dita o ritmo da inovação global.
Aqui estão alguns dos principais aprendizados sobre o mercado de tech chinês:
O domínio do inglês é significativamente maior do que em outros países asiáticos. Cerca de 80% das pessoas que trabalham com tecnologia falam inglês em um nível bom, e aproximadamente 60% são fluentes. Isso demonstra uma mentalidade globalizada e um preparo para a competição internacional.
A escala do mercado chinês é incomparável. Falei com empresas que possuem bilhões de usuários. Uma das empresas com quem conversei tinha mais de 500 milhões de usuários pagantes só na China (é tipo a população de BR+USA) – algo impensável em qualquer outro mercado.
A agressividade e a mentalidade empresarial lembram muito os EUA. Os chineses acreditam que são os melhores, não têm medo de assumir riscos e operam em um ritmo extremamente acelerado, sempre prontos para pivotar e escalar rapidamente.
A China não segue tendências – ela cria ou replica em meses. Qualquer novidade do Vale do Silício já existe na China ou será copiada e aprimorada em questão de meses.
O setor automotivo é um exemplo claro dessa velocidade de execução. Em Shanghai, cerca de 80-90% dos carros são elétricos, quase todos de fabricação chinesa. Hoje, a China produz aproximadamente 60% dos veículos elétricos do mundo – um crescimento impressionante considerando que há 15 anos esse número era inferior a 10%.
Sobre expansão internacional:
Os chineses miram direto nos EUA. Enquanto japoneses e coreanos focam primeiro no Sudeste Asiático ou Europa, as empresas chinesas olham diretamente para os EUA como principal mercado externo. Isso é incomum e em muitos mercados é quase que considerado um suicídio estratégico. O chinês tem zero medo disso.
A relação com o Ocidente é um desafio constante. A política internacional e as eleições dos EUA foram temas recorrentes nas conversas que tive, pois todos sabem que o governo americano não vê as big techs chinesas com bons olhos.
Do ponto de vista político, social e econômico, a China também tem características únicas:
O capitalismo domina tudo. A retórica comunista é apenas uma fachada que não resiste 5 minutos de observação. O mercado é feroz, as empresas são altamente competitivas e a desigualdade social é gritante.
A desigualdade extrema. Enquanto arranha-céus luxuosos abrigam restaurantes Michelin e escritórios de alta tecnologia, a poucos metros de distância há pessoas vivendo em apartamentos minúsculos, literalmente do tamanho de uma cama King Size.
Fora de das grandes cidades, a pobreza é muito mais evidente. Em áreas menos desenvolvidas, a qualidade de vida é significativamente inferior.
O nível de vigilância governamental é absoluto. A cada 50 metros, há postes com várias câmeras. Redes sociais ocidentais não funcionam (WhatsApp, Instagram, Facebook, LinkedIn, Skype, Gmail – tudo bloqueado), e qualquer crítica ao governo pode ser tratada como crime.
Os chineses sabem que vivem sem liberdade, mas não reclamam. O Estado tem controle total do poder político, econômico e bélico. Ninguém desafia o governo.
No mercado de trabalho:
A carga horária é intensa. Trabalhar aos sábados é comum, e jantares de negócios que vão até as 21h ou 22h frequentemente terminam com pessoas voltando ao escritório para seguirem trabalhando.
Férias são curtas e direitos trabalhistas são mínimos. O ritmo de trabalho é muito mais exigente do que no Ocidente.
O que fica claro é que a China não apenas lidera o cenário de tecnologia na Ásia, mas também está moldando o futuro do setor globalmente. A velocidade de execução, a força do setor tecnológico e o pragmatismo agressivo dos empresários fazem dela um caso único no mundo. Enquanto Japão e Coreia tentam se adaptar a um novo cenário, a China já está vários passos à frente – e não parece que alguém vá desacelerá-la tão cedo.