O retrato global de tech, Parte II - Coreia do Sul: O Milagre Econômico e Seus Novos Desafios
A segunda parada desta série será na Coreia do Sul. Antes de tudo, um pouco de contexto histórico: Coreia do Norte e Coreia do Sul já foram um único país. Durante a Guerra Fria, a União Soviética impôs o comunismo no norte, resultando em um conflito que devastou a região. A guerra levou a Coreia do Sul à beira do colapso econômico, mas uma revolução silenciosa baseada na educação permitiu que o país se reconstruísse. Esse investimento massivo na formação acadêmica e técnica foi fundamental para tirar milhões da pobreza e impulsionar o desenvolvimento do país.
Hoje, a Coreia do Sul é um país desenvolvido, embora ainda enfrente desafios sociais e econômicos. A desigualdade existe, mas o acesso à educação e às oportunidades de crescimento faz com que os coreanos enxerguem sua realidade com mais otimismo.
Passei uma semana em Seul conversando com líderes empresariais e C-levels de empresas de tecnologia, e alguns pontos chamaram minha atenção:
O coreano médio se comunica melhor em inglês do que o japonês, mas a penetração ainda é baixa. Cerca de 30% dos executivos com quem conversei falavam inglês fluentemente, sem necessidade de tradutor.
Apesar de serem mais agressivos e ocidentalizados que os japoneses, os coreanos ainda demonstram certa insegurança na expansão internacional.
O primeiro mercado internacional para empresas coreanas costuma ser o Japão, seguido por países do Sudeste Asiático como Indonésia, Tailândia e Filipinas. EUA e ASEAN também estão no radar, mas Austrália e Europa recebem menos atenção. A América Latina, por sua vez, raramente é mencionada.
Conceitos básicos como funil de vendas, posicionamento de marca e definição clara de ICP (Ideal Customer Profile) ainda não são tão difundidos entre empresas coreanas, embora sejam mais conhecidos que no Japão.
O ecossistema digital da Coreia é relativamente fechado. Devido ao idioma e ao tamanho do mercado, aplicativos como Google Maps e Uber não avançaram no país, sendo substituídos por soluções locais.
O nível tecnológico está avançando mais rápido do que no Japão, e o pool de talentos é mais qualificado. Muitos profissionais estudaram ou trabalharam no exterior antes de retornar ao país.
Apesar de seu desenvolvimento e economia relativamente forte,, a Coreia do Sul enfrenta desafios socioeconômicos sérios:
A taxa de natalidade é a mais baixa do mundo. A população coreana pode ser (e muito provavelmente será) reduzida a menos da metade nos próximos 80 anos.
Mesmo com esforços do governo para incentivar a imigração, barreiras linguísticas dificultam a integração de estrangeiros.
Coréia é um país de uma cidade só em. Tudo é concentrado em Seul, sem outras cidades com desenvolvimento econômico significativo.
Apesar de ser um país desenvolvido, ainda existe pobreza, e o governo não parece priorizar sua solução.
A tensão com a Coreia do Norte continua sendo um fator relevante na política nacional, ainda que o conflito esteja morno há décadas.
O mercado coreano é altamente concentrado. Conglomerados como Samsung, LG, Kia e Hyundai dominam seus respectivos setores e também possuem presença em diversas outras indústrias.
A Coreia do Sul é um exemplo notável de progresso econômico e cultural. Em poucas décadas, passou de um país devastado pela guerra para uma das economias mais dinâmicas e inovadoras do mundo. Seu sucesso se deve, em grande parte, a um forte investimento em educação e tecnologia. No entanto, desafios estruturais e demográficos ameaçam o futuro do país. A menos que sejam feitas mudanças significativas, a Coreia pode enfrentar dificuldades para sustentar seu crescimento e manter sua posição no cenário global.