O retrato global de tech, Parte I - Entre a Tradição e a Inovação: Como o Japão perdeu sua relevância no mercado Asiático.
Há alguns meses, tenho rodado o mundo a convite da Amazon AWS, oferecendo mentoria para empresas que buscam aprimorar sua estratégia de GTM (go-to-market) ou expandir internacionalmente.
Embora o objetivo principal seja compartilhar minha experiência com essas empresas, esse período tem se revelado uma oportunidade valiosa de aprendizado para mim. O contato profundo com diversas culturas e organizações tem sido fonte de muita reflexão. Por isso, decidi dividir um pouco dessa vivência – afinal, o único conhecimento que realmente vale é aquele que é compartilhado. Nas próximas semanas, publicarei uma série de posts sobre o que aprendi durante esses meses conhecendo vários negócios interessantes ao redor do planeta.
A primeira parada: Ásia.
Comecei pelo Japão, onde passei uma semana conversando com diversos founders e CEOs de algumas das empresas mais promissoras do país.
Minha primeira surpresa (de muitas, como vocês verão a seguir) no Japão foi relacionada ao idioma – ou melhor, à sua ausência. Ninguém fala inglês. Mesmo os C-Levels e executivos de grandes empresas mal conseguem se comunicar em outro idioma que não seja o japonês. Como sempre digo: não dominar o inglês hoje é quase equivalente a ser analfabeto. Esse é, em essência, o retrato do Japão.
Esse problema, assim como vários outros, tem uma origem comum: a insistência do Japão em focar exclusivamente no mercado interno. Diversos fatores explicam essa tendência – a cultura, o tamanho impressionante do mercado doméstico, a demora em se abrir para o exterior e os impactos da Segunda Guerra Mundial, entre outros.
A realidade é que o Japão, desde a época dos Zaibatsu, deixou de lado a inovação, parou no tempo e se concentrou unicamente no crescimento do mercado interno – e, convenhamos, o fez muito bem. A penetração de empresas e produtos internacionais é ínfima. Contudo, essa postura deixou diversas sequelas no âmbito empresarial. Confira alguns pontos:
O Japão sofre de uma gigante falta de bons profissionais na área de tech, especificamente nas áreas de vendas e growth.
A cultura e o idioma são barreiras enormes que são extremamente limitadoras do potencial das empresas japonesas. Penetração de inglês é baixíssima, inclusive no mundo corporativo.
Existe uma clara intenção de expansão internacional, mas devido a falta de experiência no tema, muitas empresas estão perdidas e não sabem por onde começar. Algumas falharam feio e desistiram.
Recentemente, o governo tem incentivado as empresas a expandirem internacionalmente. No entanto, devido aos enormes gaps citados nos pontos 1, 2 e 3, as empresas não têm tido retorno suficiente.
Todo mundo compreende a complicadíssima situação populacional do Japão, e parte da estratégia do governo para incentivar a expansão internacional de business de tech está conectada a isso. No entanto, pouco se avançou nos últimos 10 anos.
Os impactos não se restringem apenas ao ambiente empresarial – essas características também fizeram o Japão enfrentar sérios problemas socioeconômicos, com consequências gravíssimas:
A penetração de mulheres em postos de liderança é baixíssima. Gira em torno de 5% - note que estou falando de liderança, não de C-Level. É difícil encontrar até uma gerente mulher. Falei com ~30-40 líderes empresariais. Apenas uma era mulher.
As gerações mais antigas são tão tradicionalistas que muitas vezes não sabem nem mesmo ler uma frase em japonês escrita no nosso alfabeto.
O respeito à hierarquia é gigantesco. Isso se torna um fator extremamente limitante, a ponto de barrar o desenvolvimento das empresas.
O mercado interno japonês é fortíssimo e pujante, mas o imenso declínio populacional vai inverter essa lógica - atualmente, o Japão tem 125M de habitantes, mas apenas 730K nascimentos por ano. Isso significa que, se nada for feito, a população deve cair 50% nos próximos ~80 anos.
O impacto do declínio populacional, combinado com uma expectativa média de vida muito alta, gera um enorme problema de seguridade social que já é realidade no Japão. Hoje já é comum ver pessoas trabalhando aos 80+.
Apesar de todos esses problemas, o Japão não é um país aberto a imigração (justamente devido à sua forte cultura). Conseguir imigrar legalmente sem ser descendente de japoneses é tarefa quase impossível. A integração com os japoneses também é muito difícil.
Por outro lado, a cultura japonesa também tem impactos tremendamente positivos: a limpeza, a qualidade e a estética dos produtos e serviços são fenomenais, assim como o elevado respeito e atenção ao cliente.
Embora eu já conhecesse o Japão como turista, essa viagem me proporcionou uma nova perspectiva sobre o país, transformando minha visão e me ajudando a compreender muitas de suas nuances. Cheguei à conclusão de que o centro de gravidade do poder e da influência na Ásia está rapidamente mudando de mãos – mas esse é assunto para um próximo post.